Carnaval II – Centro do Rio
Sinceramente admiro muito a galera do Rio. Estive no Centro. Bem no coração. E tive a oportunidade de assistir a dois blocos. Um, o Famoso Bloco do Boitatá, e o outro um que não gravei o nome, me perdoem. Que sai da esquina da rua Presidente Vargas com a Primeiro de março. Doideira. Quando cheguei lá, a chuva tinha dado uma trégua. Mas não demorou muito pra chover novamente. Mas você pensa que a galera se importava? Não, pelo contrário. Os vendedores de capa de chuva se deram bem. Ninguém parecia se importar com aquele friozinho e aquela chuvinha caindo. Achei isso incrível. Qual a força deste fenômeno chamado carnaval?! Pra quem conhece um pouco do centro do Rio, consegue imaginar. Praticamente toda a Presidente Vargas, desde a Candelária até bem depois da Sapucaí, com duas pistas paradas. Lógico. O trânsito não parou. Havia outras pistas funcionando. E o povo atravessando sem parar. O fluxo de pessoas saindo da Central do Brasil, trem e metrô, em direção a Sapucaí era constante. Vendedores e mais vendedores. E isso ainda nem eram seis da tarde! Começava um empurra-empurra que lembrava os dias normais daquele lugar.
Na reta da Candelária, muitos mendigos deitados aproveitando a marquise de grandes bancos, trazendo para aquele lugar uma triste mistura de alegria de uns, com a miséria de outros. O que me faz questionar novamente esta força do carnaval. Como as pessoas parecem se esquecer de todas as suas mazelas. Ou vai ver que a intenção é justamente esta. Esquecer das tristezas, mas, pra tudo se acabar na quarta-feira. Lembrei-me de uma palestra que assisti na UFJF, me desculpe, esqueci o nome do palestrante também, um pernambucano brilhante, divertidíssimo que fez da explanação uma delícia. Ele, dando um de advogado do diabo, ao falar da escravidão e de como ficamos horrorizados com o que fizeram com os negros no passado, de como as pessoas podiam conviver com aquela situação, questionou: “- Será que daqui a algum tempo, quando olharem para o nosso tempo atual, não perguntarão: como aquelas pessoas podiam conviver com as mazelas da pobreza e com tantas pessoas passando fome, dormindo em marquise e com crianças cheirando cola?” Será que já estamos tão acostumados que não enxergamos algo tão simples? Nos acostumamos, assim como era com as pessoas no tempo da escravidão?
Voltando ao ambiente. Estando em frente do Campo de Santana, me lembrei do livro que acabei de ler da Mary Del Priori “O príncipe maldito”. É incrível poder estar ali e reviver mentalmente todos aqueles fatos, que foi a proclamação da República. Caramba! Um barato! Bom, pelo menos acontece comigo. Consigo imaginar tudo. Tudinho. O corre-corre, os poucos tiros que foram dados. Os republicanos achando que iriam ter alguma voz ativa. Olhei para casa de Deodoro. O imaginei na sacada, cansado já decrépito, não se agüentando. Descendo e indo a cavalo proclamar a tal República. As ruas ali do Centro, pequenas, espremidas, com seus casarões que fervilhavam dúvidas e incertezas sobre o que estava acontecendo. O príncipe Dom Pedro Augusto, que seria o terceiro a assumir a monarquia. O que não aconteceu. Seu passeio a cavalo perto da rua do Ouvidor, tentando ouvir qualquer borburinho que denunciasse o que estava acontecendo após a manhã do 15 de novembro, e o seu desespero em descobrir que era tudo verdade: a monárquica havia caído... Enfim, viajei. E a chuva caindo.
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